Deficiência visual na escola: entenda mais sobre o sistema Braille

8 de abril de 2020


No Brasil, o sistema Braille, que oferece a prática da escrita e leitura para pessoas cegas ou com baixa visão, data de 1854. Esse código foi adotado no País por José Álvares de Azevedo, considerado o primeiro professor cego brasileiro, e rapidamente tornou-se essencial para jovens com deficiência visual na escola. Não à toa, comemora-se o Dia Nacional do Sistema Braille em 08 de abril, mesmo dia do nascimento do professor.

Apesar de essencial, muitas questões acerca do sistema Braille ainda devem ser debatidas. Um simples exercício de autorreflexão já é o suficiente para comprovar essa necessidade. Por exemplo: o quanto você, enquanto professor, se sente preparado para lidar com a deficiência visual na escola de acordo com sua formação em Pedagogia ou licenciatura em áreas específicas? Se a resposta não for tão promissora, é sinal de que o sistema educacional, da formação do docente ao dia a dia na escola, ainda precisa de muita atenção para aprender a lidar com esses estudantes de forma igualitária e justa.

Nada melhor, então, do que conhecer mais sobre o sistema Braille para derrubar barreiras e trilhar os primeiros passos do caminho da inclusão.

O sistema Braille

O Braille não foi o primeiro sistema para a escrita e leitura de pessoas cegas ou com baixa visão. Até o início de 1800, por exemplo, era comum a prática da costura de letras em relevo. Apesar de efetivas na hora de reconhecer o que estava escrito, essa metodologia não era prática, usando muito espaço físico para que fossem criadas frases completas.

O sistema Braille foi, então, desenvolvido por Louis Braille (1809-1852), francês que perdeu a visão aos três anos de idade. Anos depois, o jovem teve contato com técnicas de escrita noturna, um código baseado em pontos em relevo que facilitavam a leitura de bilhetes secretos por soldados durante guerras. Daí, com apenas 16 anos, em 1825, Louis adaptou o sistema, criando o Braille.

Hoje, o sistema é composto por 64 símbolos que podem representar tanto letras quanto algarismos e pontuação. Esses símbolos, assim como a escrita noturna francesa, são criados por pontos em relevo, distribuídos em duas colunas de três linhas cada.

No Brasil

O Brasil foi o primeiro país da América Latina a tornar oficial o sistema Braille, logo após sua introdução pelo professor José Álvares de Azevedo, que teve acesso ao modelo de escrita na França. Sua oficialização em solo nacional foi realizada ainda por Dom Pedro II, com a inauguração do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, em 1854.

Hoje, diversas instituições se dedicam a propagar o sistema Braille, além de fomentar ações de inclusão em escolas, públicas ou particulares, do País inteiro. Motivos para isso não faltam e são embasados por números significativos.

Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2013, mais de 6,5 milhões de brasileiros são cegos ou possuem algum nível de deficiência visual. De acordo com a última Pesquisa Retratos da Literatura no Brasil, de 2016, realizada pelo Instituto Pró-Livro, 6% lêem em Braille com certa periodicidade. É difícil, entretanto, realizar uma linha de comparação assertiva entre esses dois dados, uma vez que no Censo oficial do IBGE, pessoas com 30% de visão, que podem ler sem a necessidade do Braille, são contabilizadas dentro da categoria “deficiência visual”, tornando extremamente difícil para o Brasil calcular com exatidão o real peso desse sistema de escrita dentro da sociedade.

Deficiência visual nas escolas

O modo mais eficiente de mensurarmos a importância de nos debruçarmos sobre o sistema Braille na sociedade é, talvez, nos atentarmos para as escolas. É nesse ambiente que temos a oportunidade de fazer um retrato social que elenca as necessidades da população, oferecendo auxílio para que seja possível a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e inclusiva. E os números são expressivos: segundo dados do Ministério da Educação de 2016, quase 80 mil estudantes são cegos, possuem baixa visão ou são surdocegos. Isso significa que uma parte significativa dos educandos brasileiros necessitam de atenção especial durante o processo de aprendizagem, podendo ser prejudicados caso não tenham suas necessidades atendidas.

Não é viável, por outro lado, depositar toda a culpa no professor. Conhecer o contexto, a realidade e a necessidade do ensino dentro do sistema Braille, como fizemos até aqui, é essencial, sim, mas pedir auxílio e buscar cursos e especializações é imprescindível para que o profissional possa aprimorar suas metodologias e se preparar para esse contexto. “Muitos professores acham que é simples ensinar o Braille a um estudante cego. No entanto, a alfabetização com esse sistema tem suas especificidades, e o professor, para realizar essa tarefa com êxito, tem de buscar ajuda”, comenta a pedagoga Maria Cristina Nassif, especialista no ensino para deficiente visual da Fundação Dorina Nowill, em entrevista à Revista Nova Escola.

Entendendo essa demanda inadiável, o Ministério da Educação (MEC) desenvolveu o programa Livro Acessível. Por meio dele, todas as obras escolhidas pelos professores que participam do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) possuem versões em Braille. A intenção é que jovens cegos ou  de baixa visão possuam as mesmas condições de aprendizado e evoluam juntos, sem distinções.

É importante ressaltar que o professor nunca estará totalmente sozinho. A depender do nível da deficiência visual do estudante, a presença de professores auxiliares ou acompanhantes pode ser requisitada. Nessa situação, um profissional irá apoiar o docente em todos os momentos e assegurar que o estudante em questão não esteja aquém da realidade da classe. 

Ainda assim, é importante estarmos de olho, enquanto profissionais, desde nossas formações, à questão da deficiência visual nas escolas. A busca por conhecimento por parte dos docentes é ininterrupta, e só traz bons frutos. Redes de apoio, grupos de professores que compartilham experiências entre si são exemplos de ações simples e eficazes para nos inspirar cada vez mais a adaptarmos nossos trabalhos a fim de um sistema educacional justo e inclusivo.

Fontes:

https://sidra.ibge.gov.br/tabela/5753

http://prolivro.org.br/home/images/2016/Pesquisa_Retratos_da_Leitura_no_Brasil_-_2015.pdf

http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/33063

https://novaescola.org.br/conteudo/397/como-funciona-sistema-braille