Dia do Desenhista: a importância da ilustração de livro infantil

15 de abril de 2020


Quando pensamos em desenhistas, normalmente lembramos de histórias em quadrinhos ou em pessoas próximas que usam a prática como hobby. Neste Dia do Desenhista, por outro lado, a Editora do Brasil te convida a fazer um mergulho da ilustração de livro infantil, um segmento importante da área que, por fazer parte de um produto “para crianças” pode, por vezes, passar despercebido aos olhos dos adultos. 

Ilustração de livros infantis: tão importante quanto a escrita

Em entrevista à MultiRio, portal do Governo do Estado do Rio de Janeiro, Ana Maria de Andrade, escritora, ilustradora e arte educadora comenta que “a imagem é sempre o primeiro chamado para a criança pequena, que ainda não domina a leitura verbal. Ela abre um leque de possibilidades interpretativas. A leitura de um livro infantil começa na capa e não tem limites”. Sua síntese é eficiente em mostrar ao adulto que, para a criança, o desenho nunca é apenas um desenho.

A começar pela questão da linguagem. Antes de dominar a escrita e a leitura, a criança desenha. É por meio dessas representações gráficas que ela consegue compreender sentimentos, sensações e muitos outros conceitos abstratos que, posteriormente, se tornarão intuitivos.

Esse é o entendimento por trás do conceito de livros ilustrados e livros com ilustrações. Este último tem o texto como principal agente de transmissão da história. Suas gravuras ocupam consideravelmente menos espaço e não estão necessariamente ligadas ao que se acabou de ler na página anterior. Já os ilustrados fazem das imagens itens essenciais para o entendimento da história. Possuem tanto espaço quanto o texto e buscam esclarecer para o leitor – normalmente uma criança – qual ação se passa e qual o conceito por trás das linhas. 

Assim, ao ler uma história sobre o “lobo mau”, a criança pode não compreender a seriedade que envolve um lobo perseguir os três porquinhos e o medo que eles sentem, por exemplo. Agora, imagine uma ilustração que consiga apresentar, por meio de diversos recursos visuais – cores, sombras, estilos de traços, gestos do personagem, entre outros – o caráter maléfico do lobo. É nesse momento que a criança estará realmente inserida no imaginário da literatura, quando desenvolverá a capacidade cognitiva de atribuir significado a conceitos abstratos.

Crianças – artistas modernas?

Se, até agora, afirmamos que a ilustração de livro infantil tem como finalidade a transmissão de conceitos e ideias para a criança de modo lúdico e direto, você pode estar se perguntando o motivo pelo qual esses mesmos desenhos podem ser tão exagerados, imperfeitos e longe da realidade. Assim, é tão comum encontrarmos pais que busquem “boas ilustrações” como também livros infantis que apresentem essas gravuras “excêntricas”.

A resposta é simples: a criança não precisa da riqueza de detalhes do mundo real para poder assimilar a mensagem – sendo assim, a verossimilhança com a realidade não deve ser um fator decisivo na hora de ilustrar um livro infantil. A própria escritora Cecília Meireles deixou claro em Problemas da Literatura Infantil que “Quanto à qualidade dos desenhos, talvez seja interessante averiguar o gosto das crianças pelos desenhos simplificados de ilustradores modernos, ainda que seja indiscutível o seu valor artístico no mundo dos adultos.”

A associação de Cecília Meireles é intuitiva: por falta de capacidade técnica, a criança, ao desenhar, tende a simplificar o que vê e tornar lúdico, como rostos em objetos inanimados e cores e formas vibrantes que não correspondem à realidade. Por outro lado, o modernismo na pintura se configurou justamente com essa quebra e simplificação da realidade de modo transgressor e proposital. Daí que se torna comum a diminuição tanto da ilustração de livro infantil quanto da arte moderna – sendo que ambos são, cada um à seu modo, obras de arte. Basta apenas treinar nossos olhos lembrando de que, como Antoine Saint-Exupéry afirma em O pequeno príncipe, já fomos crianças um dia.

Coautores

A importância da ilustração de livro infantil é tamanha que esses profissionais são, merecidamente, considerado coautores em tais obras. O trabalho em conjunto, entre quem desenvolve a narrativa e quem a ilustra, é essencial para que esses dois elementos caminhem juntos e sejam complementares na medida certa. 

Para você entender como essa ligação se torna tão natural no resultado final, a Editora do Brasil separou algumas dicas de leituras, tanto para você apreciar quanto para apresentar para sua turma. Confira!

1.Coleção Cora em Ação

Ilustrada por Mariângela Haddad e escrita por Jonas Ribeiro, a Coleção Cora em Ação mostra, ao longo de três livros, a jornada de Cora e seus filhos em busca de uma vida mais leve, com menos conflitos, angústias, medos e com mais cores. 

E são justamente as cores que ajudam Mariângela na tarefa de ilustrar temas tão abstratos como medo ou solidariedade. Por meio de desenhos que amadurecem ao longo dos livros, O banho de cores, A fabulosa chuva de cores e O tempo das cores dão para o jovem leitor uma experiência visual única que convida crianças e adultos à reflexão.

O banho de cores

32 páginas

R$ 42,10

A fabulosa chuva de cores

32 páginas

R$ 44,30

O tempo das cores

88 páginas

R$ 46,50

2.A beija-flor e o girassol

O trabalho do mexicano Luis San Vicente é delicado e arrebatador em A beija-flor e o girassol. Com traços e cores suaves, possui certo grau de “realismo” sem perder de vista a ludicidade inerente às crianças: o girassol ganha feições animadas, o fogo que toma conta de duas páginas inteiras e muito mais, elementos que chamam a atenção da criança a entrar no mundo criado pela escritora Paula Valéria Andrade.

O desafio imposto ao ilustrador, aqui, é o de apresentar a relação entre uma beija-flor e um girassol que, juntos, descobrem que a vida, por vezes, nem sempre será como gostaríamos que fosse, e que cabe a nós criarmos amizades fortes que caminhem junto por todos os desafios.

A beija-flor e o girassol

40 páginas

R$ 42,40

3.O mistério da bola de espinhos

Se você tivesse que descrever o que é ansiedade, o que falaria? E a sensação de preconceito ou medo de mudanças? De adulto para adulto, é possível descrever essas sensações. Mas, e para uma criança?

São justamente esses os temas ilustrados por Maurício Veneza em O mistério da bola de espinhos. Usando e abusando de elementos lúdicos, o desenhista busca apresentar esses e outros temas tão densos até mesmo para “gente grande” de modo leve e sutil para o público infantil. Já a história é assinada por Nye Ribeiro.

O mistério da bola de espinhos

32 páginas

R$42,40

4.Grafite: entre riscos e cores

O artista Marcelo Eco coleciona grafites em muros do Brasil, Argentina, Itália, França, Alemanha, Holanda, Angola, Egito – e, também, nos livros. Em Grafite: entre riscos e cores, mais do que ilustrar, Eco faz, por meio de sua arte, um convite para que a criança conheça mais sobre o grafite, exaltando essa cultura que conquistou seu lugar no Brasil depois de muito preconceito. Vale a leitura em conjunto com a turma e a troca de ideias sobre quais sentimentos ou reflexões que surgem com a mistura de cores e formas que o grafite nos traz.

Grafite: entre riscos e cores

48 páginas

R$44,60

Fontes:

http://comoeducarseusfilhos.com.br/blog/ilustracao-de-livro-infantil-e-coisa-seria/

http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/leia/reportagens-artigos/reportagens/14899-o-papel-da-imagem-na-literatura-infantil

Problemas da literatura infantil, Cecília Meireles e John Tenniel